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Buscar a superação desse momento pandêmico pode ser muito desafiador e, sem dúvidas, exige muita criatividade. Nesse contexto, é ímpar constatar que o ensino híbrido, nas suas diversas modalidades, pode ser a resposta.

A crise da escola vazia é algo que entristece e preocupa profundamente quem é comprometido com a educação. São mais de 55 milhões de estudantes e 2 milhões de professores que ficaram impossibilitados de frequentar as instituições educacionais no Brasil, da Educação Infantil à Pós-Graduação.

Quando escrevo esse texto, já se completaram mais de 100 dias nessa situação antes inimaginável. É algo inédito, que exige muita criatividade e perspicácia por parte de mantenedores e gestores que lutam pela sobrevivência das escolas – essas organizações complexas, nas quais as famílias e estudantes depositam seus sonhos de forma confiante e esperançosa.

O novo coronavírus tem um efeito colateral grave no Brasil, além de provocar as mortes, adoecimentos e empobrecimento em larga escala, de forma trágica. A pandemia escancara e piora a desigualdade, algo ainda mais grave na educação.

De acordo com a pesquisa ‘Educação não presencial’, realizada pelo Datafolha*, na segunda quinzena de maio de 2020, 74,4% dos estudantes brasileiros participaram de algum tipo de atividade pedagógica não presencial, sendo que, destes, 86% dos alunos do Ensino Médio tiveram acesso a atividades remotas, contra apenas 70% dos matriculados no Ensino Fundamental I. Enquanto 81% dos discentes da rede estadual receberam algum tipo de material para as atividades a distância, o mesmo foi verdadeiro para apenas 68% da rede municipal.

 

Falta de acesso

A falta de ou as dificuldades de acesso à internet, conteúdo pouco didático, ausência de equipamentos e pouco interesse são os principais motivos para os estudantes não realizarem tudo o que é solicitado. O mais grave é que, mesmo dentre os que foram alcançados pelo ensino remoto emergencial, apenas 50% conseguem perceber evolução no aprendizado, sendo 58% no Ensino Fundamental e 44% no Ensino Médio.

Ou seja, muitos alunos sem nenhum ou com pouco acesso à Internet, sem condições de acompanhar os estudos e aulas propostos. E outra multidão que já percebe sérios déficits entre o que deveria ter aprendido e o que realmente aprendeu, algo compreensível pela velocidade e abrangência da mudança realizada, do presencial para a educação a distância.

Ambos os perfis precisarão de um trabalho personalizado para recuperação do tempo perdido, o que deve ser resolvido a médio prazo.

Para tornar ainda mais complexa a situação, o mais provável é que os protocolos de retorno das aulas e demais atividades presenciais nas instituições educacionais exijam o planejamento e reorganização dos tempos e espaços escolares, com redefinição do número de crianças e estudantes por sala de aula, escalonamento das crianças e estudantes em aulas presenciais e em atividades não presenciais que sejam complementares. Isso pede o desenvolvimento de estratégias para implementar novas metodologias, como o ensino híbrido.

 

Ensino híbrido

O ensino híbrido (também conhecido pela expressão em inglês blended learning) é o conjunto de metodologias que combinam a aprendizagem realizada em espaços físicos e tempos coincidentes (uma sala de aula presencial, por exemplo) com modelos que mesclam outros momentos em que o estudante participa, sozinho ou em grupo, de atividades online ou mediadas por outras tecnologias digitais, veja:

Há seis tipos de ensino híbrido que podem ser adotados, inclusive em disciplinas e aulas diferentes com a mesma turma – veja tabela** a seguir.

 

TIPOS DE ENSINO HÍBRIDO
Suplementar O estudante trabalha em sala de aula, com atendimento do professor e, posteriormente, continua com seus estudos em ambientes virtuais.
Rotação de estudos O estudante desenvolve uma rotina de estudos em sala de aula com acompanhamento do professor presencial e em ambientes virtuais com auxílio de outro professor online.
Sala de aula invertida O estudo é iniciado em ambientes virtuais e, posteriormente, o estudante participa de projetos e atividades em sala de aula física. Também conhecida pela expressão em inglês flipped classroom.
Laboratório rotacional Desenvolve atividades em uma sala de aula tradicional e as atividades online são realizadas em um laboratório de informática.
Híbrido colaborativo síncrono Caracteriza uma sala de aula com o professor e estudantes presenciais, compartilhada com alunos que participam de forma síncrona a partir de outros espaços físicos. Por meio do uso de ferramentas integradas a uma plataforma de aprendizagem, os discentes podem estabelecer uma comunicação síncrona ou assíncrona.
Grupo dual-colaborativo Utilizar o portfólio eletrônico de grupos, um grupo de estudantes e um facilitador trabalham com a construção de saberes em cenários protegidos e controlados. São usados objetos de aprendizagem, práticas ou situações problemas para discutir assuntos e, posteriormente, postados no ambiente virtual de aprendizagem para que outros estudantes interajam e colaborem nas discussões.

 

Vantagens

O ensino híbrido tem o potencial de aumentar a flexibilidade das escolas para atenderem alunos e professores que deverão voltar a frequentar os espaços físicas em dias e horários alternados. Pode reduzir as necessidades de infraestrutura, oferece alternativas economicamente sustentáveis para desenvolver programas de recuperação e a reorganização do calendário escolar. A personalização das trilhas de aprendizagem a serem superadas pelos estudantes que apresentarem alguma dificuldade é mais viável com essa abordagem.

Portanto, é fundamental que as instituições educacionais incluam em seus planos de contingência para prevenção, para o monitoramento e para o controle da transmissão de COVID-19, estratégias para implementação do ensino híbrido.

Já na realização de avaliações diagnósticas, esse planejamento deve se fazer presente na elaboração dos programas de atividades recursivas, com foco em habilidades e competências, para que se garanta a recuperação das aprendizagens e o monitoramento do processo pedagógico de maneira economicamente sustentável e com boa qualidade

 

* DATAFOLHA. Educação não presencial: onda 1. São Paulo: Datafolha; Imaginable Futures; Fundação Lemann; Itaú Social, julho de 2020.

** SCHIEHL, E. P.; GASPARINI, I. Modelos de ensino híbrido: um mapeamento sistemático da literatura. In Anais do XXVIII Simpósio Brasileiro de Informática na Educação – SBIE 2017.

 

Luciano Sathler é doutor em Administração pela FEA/USP, membro do Comitê de Educação Básica da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), Reitor do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix e Diretor do Colégio Metodista Izabela Hendrix.

Revista Veredas Educacionais – agosto / 2020