A importância do material didático no seu posicionamento educacional

por agosto 27, 2020Educação

Mais do que dar suporte aos professores em sala de aula ou orientar os trabalhos pedagógicos, o sistema de ensino demonstra um posicionamento educacional, da visão didática e curricular. Por esse motivo, é importante levar em consideração a confessionalidade da escola na hora de optar por este material.

 

A escolha do Livro didático – incrementado de novas tecnologias e funcionalidades que o atribuiu a alcunha de “Sistema de Ensino” – não pode ser sem o devido rigor e atenção, tendo em vista que este material é responsável por posicionar a sua instituição e reforçar a confessionalidade desta.

Segundo Noemih Sá Oliveira, coordenadora pedagógica do Sistema de Ensino Mackenzie, o material didático escolhido demonstra, além de posicionamento educacional e visão didática, a visão curricular diante da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

“A proposta educacional nacional está alinhada à proposta de órgãos internacionais como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) na linha de troca de uma educação propedêutica (em geral, uma visão da escola como um curso de introdução a conhecimentos gerais e específicos nas disciplinas científicas e acadêmicas) para uma educação por competências (em geral, uma visão da escola como um local de desenvolvimento de habilidades que formam competências)”, explicou.

Além disso, segundo ela, conhecer o livro didático oferecido pela escola ajuda os pais a perceber como a escola pensa e realiza a educação.

“Se o livro é predominantemente informativo e enciclopédico, com uma tendência a exercícios repetitivos de memorização, ele tem uma tendência a ser um material propedêutico. Se o livro é predominantemente narrativo ou discursivo, e apresenta atividades lúdicas e desafiadoras, em vários campos do saber, ele tem uma tendência a um material para desenvolvimento de competências e habilidades”, ressalta.

 

BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR

Noemih explicita o caráter organizacional das aprendizagens essenciais na BNCC, de forma a nortear o que tem de ser ensinado. “Diz nossa constituição, no artigo 205, que a educação das crianças é dever do Estado e da família. Consideremos que os filhos nascem dos pais, e que há aí um vínculo de responsabilidade pré-constitucional, no que diz respeito à educação, inclusive. Já o Estado tem se responsabilizado em estabelecer os conteúdos mínimos que devem ser ensinados por escolas públicas e privadas do país”, explica.

A BNCC traz a proposta de que a escola seja mais do que um local de ensinamentos sobre conteúdos escolares – que seja um local de desenvolvimento e domínio de habilidades.

Nesse ínterim, Noemih explica como ver em um livro didático um posicionamento educacional frente ao que foi normatizado pela BNCC.

“Consideremos um sistema X que, à luz da confessionalidade, prima pelo desenvolvimento moral, cognitivo e físico das crianças. Assim, o desenvolvimento cognitivo não tem a ver apenas com o conhecimento de informações, mas com o entendimento, significativo e sistematizado, de uma realidade estruturada. Essa proposta consegue englobar e cumprir as competências gerais da BNCC. Este é um exemplo de como um livro didático expressa, em sua organização e em seus textos, uma visão educacional que se posiciona quanto à proposta da BNCC, cumprindo-a”, exemplifica.

 

ESCOLHAS


Toda escolha, tanto pedagógica das escolas quanto dos pais ao optar por uma instituição que contemple seus valores, deve ser discutido de forma ampla, uma vez que pode moldar o futuro e o arcabouço de habilidades e competências – fruto de um posicionamento e modo de ver a educação – que o aluno irá adquirir.

“A difícil tarefa dos pais de escolher uma escola para os seus filhos se torna mais desafiadora quando, diante dessa proposta educacional nacional, eles têm de pensar em questões como as relacionadas a seguir: 1) Os pais estão cientes do que significa uma educação por competências? 2) Os pais sabem e concordam com a maneira como a escola irá propor o desenvolvimento das habilidades dos seus filhos? 3) Os pais sabem e concordam com o sistema de avaliação de habilidades, que tende a ser radicalmente diferente da avaliação apenas de conhecimentos? 4) Os pais estão cientes de todas competências propostas pelo governo, nesses termos?”, questiona.

Segundo ela, uma vez que o documento da Base seja cumprido, há espaço para acrescentar ao material diretrizes que façam com que o currículo de cada escola reflita seus posicionamentos para essas e outras questões; posicionamentos que os pais identificam para saber se a escola se aproxima ou não de seus próprios posicionamentos e escolhas para seus filhos.

 

CONFESSIONALIDADE


Quando uma escola opta por um posicionamento de confessionalidade, é importante que a escolha do material reforce essa posição.

Segundo a professora Débora Bueno Muniz, especialista em gestão pedagógica, a escolha deve levar três fatores em conta. “A escola confessional precisa estar atenta: (1) ao que está sendo ensinado; (2) à forma como estão sendo abordados os assuntos; (3) a partir de que visão de mundo estão sendo trabalhados os conteúdos. [É importante] lembrar sempre que educação cristã consiste em ensinar tudo, de ciências e matemática a literatura e artes, dentro da estrutura de uma visão de mundo bíblica e integrada”, ressalta.

Segundo a educadora Iolene Lima, a escola deve optar por um sistema que se articule com seu propósito de existência.
“Para escolher, ainda é bom ponderar sobre a filosofia implícita no material, a cosmovisão, o projeto gráfico, graduação de atividades e outras nuances pertinentes à metodologia da escola”, cita.

Para João Marcos Lemos, educador e gestor escolar, não é produtivo adequar qualquer sistema de ensino a uma proposta pedagógica baseada em princípios cristãos. “Quando a escola adota um sistema de ensino que não segue uma linha cristã, primeiramente, terá que ensinar assuntos que vão contra a crença cristã, criando dificuldades para os pais cristãos que terão que corrigir muitos conceitos errôneos ensinados na escola. Em segundo lugar, terá de ensinar coisas que realmente não crê, o que é absolutamente frustrante. A chave do conhecimento e da sabedoria estão em Jesus”, finaliza.

 

O que dizem os especialistas?


Débora Bueno Muniz

Educadora e especialista em gestão escolar

O que se torna relevante, para essa escolha, é a análise minuciosa e criteriosa dos fundamentos que sustentam a abordagem, a metodologia e a cosmovisão que está “por trás” dos conteúdos.
 Portanto, se a “filosofia” que está subliminarmente colocada nos materiais não é a mesma na qual a escola acredita, haverá um choque, haverá contradição, e isso não agrega valor, pelo contrário, provoca dissenções.

 Tanto a Proposta Pedagógica (PP) de uma escola, quanto os princípios norteadores de um determinado material didático, ao serem elaborados (escritos), já têm suas definições estabelecidas. Ou eles estão alinhados, conectados, ou não estão. Para se fazer qualquer adequação, qualquer um dos lados (escola ou material) precisarão “abrir mão” dos seus princípios, dos seus limites e parâmetros; e isso descaracterizaria a sua essência. E ainda teríamos a aparência de uma “colcha de retalhos”.

 Um sistema de ensino pode contribuir com a escola, trazendo soluções integradas, como por exemplo, assessoria pedagógica, programa de formação de professores e recursos de tecnologia educacional. Oferece, ainda, a possibilidade de unificar procedimentos e metodologias, além de fornecer atualizações constantes nos conteúdos”.

Iolene Lima
Gestora, conferencista e consultora educacional

Uma escola, ao optar por um material, tem que ter em vista que este é uma ferramenta para atingir o alvo, não o alvo em si mesmo. É necessário ter claro qual é o seu propósito, sua missão. O livro ou sistema, qualquer que seja ele, deve estar articulado com esse ‘norte’.
A maior dificuldade encontrada em sistemas de ensino não cristãos é a filosofia. A filosofia determina a linha de toda a editoração. Assim como um material com filosofia essencialmente evolucionista, jamais poderia ser usado numa escola cristã.
 As contribuições de um bom sistema para o processo de ensino-aprendizagem são: alinhamento pedagógico entre todos os segmentos, melhor custo-benefício para os pais e a diminuição do uso de cópias (xerox)”.


João Marcos Lemos
Educador e gestor do Colégio Cognos

É importante pensar em um sistema de ensino que, além do conteúdo acadêmico, forme cidadãos preparados para enfrentar os desafios do mundo corporativo, da sociedade em crescente transformação com valores e princípios sólidos.

Ao contratar um sistema de ensino, devemos ficar atentos a:

1. Verificar se o conteúdo nega os ensinos bíblicos no que concerne à criação do universo.
2. Verificar se o conteúdo nega que há um único e soberano Deus.
3. Verificar se o conteúdo nega a humanidade de Jesus Cristo e nega que ele é o salvador.
4. Verificar se o conteúdo afirma a existência de diversidade de gênero, apoia a homossexualidade, aborto, entre outros.
5. Verificar a postura do sistema em relação ao carnaval, páscoa, festa junina, hallowen, natal e folclore.

Uma escola confessional ou com princípios cristãos deve sempre trabalhar com a verdade, nada além da verdade. Se o conteúdo nega a verdade, ou distorce a verdade, esse sistema não contribuirá para o enriquecimento da educação.

Um sistema de ensino de qualidade abre a mente das pessoas em relação à veracidade dos fatos”.

 

 

Revista Veredas Educacionais – abril / 2020